Aula nº 21: Na gestão de crises a discrição é o ponto-chave
A comunicação de crise é uma das disciplinas mais complexas do marketing institucional e que obriga a um tipo de procedimentos de tal forma peculiares que, em muitos casos, se rege por princípios completamente antagónicos da regras gerais das relações públicas.
A comunicação de crise acontece quando o fluxo informativo não pode ser controlado ou previsto, em que os protagonistas são apanhados desprevenidos com algo que aconteceu sem depender deles.
Vejamos o caso de Paulo Portas relacionado com a Universidade Moderna:
Portas soube escolher o meio ao optar por uma entrevista na TVI em vez de um debate parlamentar. Nada mais eficaz quando nos encontramos em dificuldades públicas ou mediáticas.
Na escolha do meio Portas esteve bem, contudo, estragou tudo quando dois ou três dias depois deu uma conferência de Imprensa sobre o assunto. Nada pior que uma conferência de Imprensa generalista, com câmaras apontadas e jornalistas ansiosos por aquele momento para comunicar numa situação de crise.
Como se constatou, até as imagens da simples saída de cena do protagonista podem ser usadas como sinal de irritação, de cobardia ou fuga às responsabilidades.
Dar visibilidade a uma situação de crise é o objectivo dos nossos adversários.
Este episódio confirma a especificidade do sistema mediático. O gerente de uma empresa de sondagens com ligações controversas por provar não pode, na opinião de muitos, ser ministro de Estado e da Defesa Nacional. O director de jornal condenado por crimes de Imprensa pode, já que na opinião de outros os crimes de Imprensa não são crimes, são medalhas.
Uma crise pode afectar ou destruir a reputação, a imagem, o clima organizacional, a confiança dos seus clientes e a credibilidade de uma empresa ou instituição pública ou privada, por vários anos. Pode também afectar os seus resultados económicos, assim como trazer prejuízos aos seus profissionais e funcionários.
Um planeamento empresarial que inclua o gerenciamento e a comunicação de crises nas empresas é hoje uma exigência da economia globalizada na Europa e EUA, principalmente.
Um exemplo:
Foi retirado do mercado em Itália um leite infantil produzido pela Nestlé. Algumas embalagens continham vestígios de um componente venenoso procedente de uma migração do material de embalagem TetraPak impresso em offset.
Esta notícia rapidamente chegou a Portugal tendo eco na maioria dos órgãos de comunicação social. Para não comprometer a imagem da empresa e tranquilizar os consumidores, a Nestlé emitiu um comunicado afirmando que o produto não oferecia nenhum risco para a saúde, mas que ia substituir todos os lotes que foram produzidos com a referida técnica de impressão. A empresa disponibilizou também, desde logo, uma linha telefónica para responder a todas as questões sobre o assunto.
No dia seguinte, este mesmo comunicado, estava presente em todos os jornais, em letras garrafais e ocupando páginas completas.
Mais de quinze dias depois, ficou provado pela Agência Europeia para a Segurança Alimentar que a substância não era, de facto, prejudicial à saúde. No entanto, este esclarecimento teve pouca cobertura nos media, o que confirma que a comunicação social deseja ferozmente alarmar o público, esquecendo-se depois de repor a verdade.
Não há como prever uma situação de crise, mas é possível antecipar formas de reagir e lidar com elas. Pior do que as consequências de uma crise, são as consequências de não reagir à crise: aumentar as suspeitas, calunias, críticas, rumores, acabam com a credibilidade e confiança entre a empresa e os seus clientes.
Como gerir uma crise?
- Em primeiro lugar é obrigatório garantir a comunicação numa situação de crise. Ou seja, é necessário que as empresas estejam preparadas para responder através de planos de actuação adequados a cada situação concreta.
- Preparar e prever uma situação de crise pode ajudar a atenuar o problema. Por exemplo, uma empresa de leite pode antecipar alguns tipos de crises prováveis, como o envenenamento, deterioração do produto, sabotagem.
- Um consultor que já tenha lidado com crises saberá mais rapidamente encontrar soluções básicas. Como refere Luís Paixão Martins, “se a assessoria de imagem é geralmente uma maratona, em situações de crise somos forçados a fazer tudo num sprint de 100m”
- A preparação evita o pânico, avança-se logo para o tratamento
- Elaborar auditorias de prevenção e manuais de preparação para circunscrever os riscos
- A empresa deve eleger um único porta-voz com determinadas características: calmo, não reagir em excesso, não ser especulativo, deve ser humano e sensível
- Criar um centro de imprensa para onde sejam canalizadas todas as informações
- Divulgar tudo ao mesmo tempo, para todos, sem privilégios
- Estar sempre do lado das autoridades, tentando demonstrar que estão a resolver o problema
- Criar um manual de crise: um documento que descreve todos os passos essenciais que uma empresa dar na gestão de uma situação adversa, desde a lista de contactos dos responsáveis e quadros superiores e técnicos, linhas de emergência, hipóteses de porta-vozes
